Viralizar nas redes sociais é o sonho de muitos empreendedores. Um vídeo que alcança milhões de pessoas tem potencial para transformar um pequeno negócio da noite para o dia, com aumento de clientes, mais vendas e alta visibilidade. Mas o que parece ser o auge do sucesso também pode se transformar em um teste de sobrevivência para quem empreende.
O fenômeno é cada vez mais comum: vídeos no TikTok ou no Instagram que mostram restaurantes vazios, histórias emocionantes ou produtos curiosos se espalham rapidamente e levam multidões aos estabelecimentos. O problema é que esse pico de atenção raramente dura para sempre. Sem planejamento, estrutura e estratégia, a viralização pode gerar gargalos operacionais, pressão financeira e até o fechamento do negócio. Ao mesmo tempo, alguns empreendedores conseguem aproveitar esse momento para consolidar a marca e transformar a exposição repentina em crescimento sustentável.
PEGN ouviu donos de negócios que viveram essa montanha-russa digital — alguns que não conseguiram manter a operação por muito tempo e outros que ainda colhem frutos da viralização — para saber como lidaram com a exposição e as dificuldades de capitalizar a visibilidade.
Um vídeo e um restaurante cercado por 5 mil pessoas
Quando o empreendedor Vitor Souza, 35 anos, abriu o Downtown Gastrobar, em Manaus (AM), no norte do país, em fevereiro de 2024, ele imaginava que o negócio cresceria de forma gradual. O restaurante funcionava em um prédio histórico de quase 100 anos, recém-restaurado, e tinha capacidade para cerca de 50 a 60 clientes por noite. O que ele não esperava era que um vídeo postado por uma vizinha mudaria completamente o destino do bar em poucas horas.
Souza lembra que o restaurante tinha apenas duas ou três semanas de funcionamento quando tudo aconteceu. O vídeo mostrava o estabelecimento aparentemente vazio em um dia de semana e rapidamente ganhou tração nas redes sociais. “Era uma quarta-feira, com um movimento que já esperávamos para o início de operação, mas a vizinha gravou com as melhores intenções e postou no TikTok. Em cerca de 24 horas, o vídeo já tinha 26 milhões de visualizações”, conta.
A repercussão foi imediata. Personalidades como Luciano Huck compartilharam o conteúdo e grandes páginas nas redes sociais replicaram o vídeo. O resultado foi uma avalanche de atenção nacional. Souza estava viajando para o próprio casamento quando começou a receber uma enxurrada de mensagens. “Quando chegamos ao aeroporto, fomos bombardeados com mensagens dizendo que o bar tinha viralizado”, diz.
O impacto não demorou a aparecer na prática. Grupos organizados nas redes começaram a marcar um dia para visitar o estabelecimento ao mesmo tempo. Quando a data chegou, a cena foi inédita. “Naquela noite, tivemos aproximadamente 5 mil pessoas nas ruas em torno do bar, segundo o Corpo de Bombeiros. As vias ficaram fechadas. Algumas empresas de cerveja fizeram ações, artistas tocaram gratuitamente e se formaram vários palcos ao redor”, relata.
A viralização trouxe visibilidade, mas também uma mudança abrupta na operação do restaurante. Souza explica que o negócio saiu de uma estrutura preparada para poucas dezenas de pessoas para lidar com centenas diariamente.
“A gente saiu de um bar preparado para receber 50 ou 60 pessoas e passou a ter um fluxo de 500 a 600 pessoas por dia nas semanas seguintes”, diz. “Precisamos refazer cardápio, rever estrutura de refrigeração, reorganizar mesas, melhorar sonorização e ampliar a equipe. Foi uma mudança muito brusca em 24 horas.”
Esse salto repentino exigiu muito mais do que popularidade nas redes. “O maior desafio é que você não está preparado psicologicamente, administrativamente nem estruturalmente para receber uma demanda tão alta em tão pouco tempo”, afirma.
Souza reconhece que, olhando em retrospecto, algumas decisões poderiam ter sido diferentes. “Faltou estrutura administrativa para lidar com aquilo. Eu imaginava que a viralização seria algo passageiro, que teria um pico de um ou dois meses e depois iria diminuir. Então evitamos gastar todo o dinheiro em uma mega operação que talvez não se sustentasse.”
Mesmo assim, o bar conseguiu se manter por um período considerável. O Downtown Gastrobar permaneceu aberto por quase dois anos após a viralização. O investimento inicial, que levaria cerca de seis meses para ser recuperado, foi pago em apenas um mês graças ao enorme fluxo de clientes.
Para tentar manter o público, Souza passou a criar novas atrações. O bar ganhou noites de karaokê, eventos de dança e até funcionamento praticamente integral ao longo do dia. “Começamos a servir almoço, depois happy hour, jantar e mais tarde abríamos o salão de dança. O espaço ficou praticamente em funcionamento o tempo todo.”
O motivo para o fechamento, em dezembro do ano passado, não foi uma crise financeira, mas uma mudança de rumo profissional. Durante o período de viralização, ele passou a receber mensagens de empreendedores pedindo conselhos sobre marketing e gestão. “Muita gente achava que eu tinha ‘vencido na vida’ só porque o bar viralizou e me procurava pedindo ajuda para crescer”, diz.
Com o tempo, essas conversas se transformaram em oportunidades de negócio. Souza criou uma agência especializada em marketing e crescimento para empresas e decidiu se dedicar integralmente ao novo projeto. “Hoje atendemos cerca de 12 clientes no Brasil e dois fora, inclusive nos Estados Unidos. Chegou um momento em que conciliar dois bares e a agência estava me consumindo demais.”
Um restaurante vazio, três pizzas vendidas e um vídeo que mudou tudo
A história do Maria Bistrô Café e Pizza, em Caruaru (PE), mostra outro lado da viralização: o momento em que um negócio à beira de fechar ganha uma segunda chance.
Os sócios Gidalcí Matias, 53 anos, e João Bosco, 61 anos, abriram o bistrô em setembro de 2025 em uma avenida conhecida pela concentração de restaurantes. A localização parecia promissora, mas os primeiros meses foram extremamente difíceis.
“Nós passamos dois meses praticamente sem movimento. Não conseguíamos pagar aluguel, energia nem as despesas básicas”, lembra Gil. “Teve um dia em que vendemos três pizzas. Só três.”
O estabelecimento tem capacidade para cerca de 60 pessoas, mas o salão permanecia vazio. “Todos os dias abríamos a casa organizada, mesas arrumadas, esperando clientes que não vinham”, conta.
Em uma segunda-feira — justamente o dia em que o restaurante costumava fechar — tudo mudou. Um influenciador local gravou um vídeo mostrando o casal no estabelecimento aparentemente vazio. O conteúdo viralizou rapidamente.
“No dia seguinte abrimos normalmente e fizemos nossa oração antes do expediente. Por volta das 19h, recebemos uma jovem que disse que tinha visto a gente na internet e veio ajudar. Cerca de 40 minutos depois a casa estava completamente cheia”, relata Gil.
A repercussão foi imediata. O perfil do bistrô no Instagram saltou de 1,7 mil seguidores para mais de 100 mil em menos de dois dias. Hoje, já ultrapassa 156 mil.
O caso acontecem em novembro do ano passado. Durante todo o mês de dezembro, o restaurante viveu uma rotina intensa. Filas se formavam na porta e o casal chegou a fechar temporariamente a entrada até que mesas fossem liberadas. “Foi um movimento gigantesco. Tínhamos filas de pessoas e filas de carros”, diz Gil.
O sucesso veio justamente em um período que costuma ser mais fraco para muitos negócios. “Dezembro geralmente é um mês em que as pessoas gastam com Natal e viagens, mas para nós foi o contrário”, observa.
Bosco lembra que a viralização também atraiu visitantes de outras regiões. “Recebemos gente do Rio de Janeiro, do Distrito Federal e de vários estados. Muitos diziam que estavam viajando e decidiram passar por Caruaru para tomar um café aqui.”
Apesar da redução natural no movimento após o pico inicial, o negócio conseguiu se estabilizar. “Hoje não temos aquela proporção do início, mas muitos clientes voltam e outros que não conseguiram vir na época estão chegando agora”, afirma João.
A viralização também obrigou o bistrô a se reorganizar rapidamente. O negócio, inicialmente familiar, contou com ajuda de amigos nos primeiros dias após o boom de clientes. “Quem nos salvou naquele momento foram os amigos. Eles vieram ajudar porque não tivemos tempo de contratar ou treinar equipe”, conta Gil.
Hoje o estabelecimento tem quatro funcionários e alguns serviços terceirizados. A estrutura de compras também mudou. Antes, os donos precisavam ir diariamente a supermercados para adquirir ingredientes; agora trabalham com fornecedores que entregam diretamente no restaurante.
Mesmo com o crescimento, o casal decidiu manter a essência do negócio. “Nós não queremos perder a qualidade. Não adianta ter a casa cheia se o cliente sai insatisfeito”, afirma Gil.
Bosco reforça que o atendimento pessoal continua sendo parte essencial da experiência. “Eu gosto de conversar com os clientes, ouvir histórias e contar a nossa história também. Muitas pessoas dizem que vieram porque viram nossa trajetória e se sentiram inspiradas.”
Quando a viralização não é suficiente para sustentar um negócio
Nem sempre, porém, o sucesso nas redes se transforma em uma operação duradoura.
A pizzaria Eyt’ss Pizzas, no bairro do Tatuapé, em São Paulo, também viveu um momento de forte repercussão nas redes sociais logo após a inauguração. Em fevereiro de 2025, um vídeo que mostrava o empreendedor Rhoberto Eyte Aoyama, 65 anos, dentro do estabelecimento praticamente vazio, olhando para a rua à espera de clientes, chamou a atenção.
O registro não foi feito com a intenção de viralizar. Na legenda, um familiar desabafava sobre a situação do negócio: “Triste vendo meu pai abrir uma pizzaria e quase ninguém pedir pizza ou se interessar por ela. Ele realmente precisa disso.”
O conteúdo rapidamente ganhou tração nas redes. Em poucas horas, acumulou mais de um milhão de visualizações e passou a circular em diferentes perfis.
Segundo João Camilo Bemfica, ex-gerente da pizzaria e sobrinho do proprietário, o alcance foi totalmente inesperado. “Foi um vídeo totalmente aleatório, mas nas primeiras horas já tinha mais de um milhão de visualizações”, lembra. A repercussão foi tão grande que empresas chegaram a procurar o estabelecimento para possíveis parcerias e ações de divulgação.
O movimento aumentou, mas de forma moderada. “Chegou gente de todo lugar perguntando se entregávamos em outras cidades. Alguns clientes chegaram a mandar Uber para buscar cinco pizzas”, conta Bemfica.
Com a visibilidade, o negócio começou a testar algumas estratégias para ampliar as vendas, como a criação de uma marca paralela voltada ao delivery com preços mais acessíveis e a expansão do cardápio com opções como esfirras e escondidinhos.
Apesar disso, a operação durou cerca de oito meses. De acordo com Bemfica, o fechamento aconteceu por questões pessoais entre os proprietários, e não necessariamente pela repercussão nas redes.
A experiência, porém, deixou aprendizados importantes. “Antes de qualquer hype, o fundamental é ter planejamento e fluxo de caixa saudável. Negócio local consome muitos recursos: estrutura, funcionários, estoque. Se não houver gestão financeira sólida, não adianta ter milhares de visualizações.”
Pequenos negócios estão cada vez mais digitais
O crescimento de vídeos virais que impulsionam pequenos negócios também acontece em um contexto de avanço da digitalização entre empreendedores brasileiros.
Pesquisa recente do Sebrae com 7.182 donos de micro e pequenas empresas mostra que o Indicador de Maturidade Digital (IMD) — que mede o potencial de um negócio aproveitar ferramentas digitais — chegou a 37 pontos em uma escala de 0 a 80, um aumento de 6% em relação ao ano anterior, quando o índice era 35.
O levantamento aponta que a evolução foi puxada principalmente pelos setores de Serviços e Comércio, e ocorreu em empresas de todos os portes. O maior avanço foi entre microempreendedores individuais (MEI), cujo indicador cresceu 8%, enquanto nas empresas de pequeno porte o aumento foi de 5% e nas microempresas, de 2%.
Outro estudo do Sebrae mostra que a digitalização atingiu um nível recorde em 2025 entre pequenos negócios. Segundo a pesquisa, 76% dos empreendedores já utilizam computadores em suas atividades, crescimento de seis pontos percentuais desde 2022. O uso de aplicativos e softwares de gestão também avançou: hoje 47% dos empreendimentos utilizam ferramentas integrativas, que ajudam a organizar processos e operações do negócio.
A conectividade também se tornou praticamente universal. 98% dos empreendedores afirmam usar internet, seja própria ou de terceiros — um cenário que ajuda a explicar por que redes sociais e plataformas digitais se tornaram um dos principais motores de visibilidade para pequenos negócios.
O que fazer depois que o hype passa
Para Marco Vinholi, diretor-técnico do Sebrae em São Paulo, a viralização costuma ser confundida com uma mudança permanente no mercado — e esse é um dos erros mais comuns entre empreendedores.
“Quando um negócio viraliza, muitos acreditam que aquilo representa uma nova realidade definitiva. Mas na maioria das vezes é apenas um pico momentâneo de atenção”, explica.
Segundo ele, decisões precipitadas podem comprometer o futuro da empresa. “Alguns ampliam custos rapidamente, assumem compromissos financeiros elevados ou tentam expandir sem estrutura.”
O especialista afirma que o caminho mais seguro é usar a visibilidade para fortalecer a base do negócio. “O empreendedor precisa aproveitar o momento para fidelizar clientes, melhorar processos e entender quem são as pessoas que chegaram. O viral traz atenção, mas é a gestão que transforma essa atenção em crescimento sustentável.”
Outro ponto importante é evitar confundir faturamento com lucro. “Em momentos de explosão de vendas, os custos também aumentam com produção, logística, plataformas digitais e equipe. Sem controle financeiro, é possível vender muito e ganhar pouco.”
Para Vinholi, transformar um momento viral em um negócio duradouro depende de três pilares: gestão profissional, construção de marca e aprendizado contínuo. “Viralizar pode ser sorte. Transformar esse momento em um negócio sólido exige disciplina, planejamento e visão de longo prazo.”